No texto anterior deixei de escrever algumas coisas que acho importante na história dessa grande amizade.
Ele, já um universitário de 20 anos, eu com 13, reparava e elogia roupas novas e mudanças no cabelo, numa fase em que a auto estima está em formação, onde a gente não é menina, não é mulher, desengonçada total, ele sempre tinha um olhar e palavras carinhosas.
Embora nunca falasse sobre religião, ele ia todos os domingos á missa pela manhã.
A carta que ele escreveu, os conselhos que ele me deu, fizeram toda diferença em todo o resto de minha vida.
Acendeu uma luzinha de "alerta", "fique esperta", me sentí querida e importante, e não queria decepcionar. Voltei a andar na linha rápidinho, quando já calçava as sandálias para trilhar uns caminhos, sabe-se lá…
Nunca falamos sobre a carta, nem agradeci, mas ele sabia que era o amigo mais querido.
O que ele nunca soube foi a importancia que teve e da diferença que fez em toda minha vida.
domingo, 15 de abril de 2012
quinta-feira, 12 de abril de 2012
Grande Amigo.Boas lembranças
Espalhado nos escritos de 6 anos de existência de meu blog, há registro de histórias e pessoas significativas da primeira fase de minha vida.
As primeiras lembranças da infância, até 1970, quando com quase 15 anos, me mudei de Tabatinga para Ibitinga.
Cidades vizinhas, 30 Km de distancia, mas estilos de vida muito diferentes.
.Entre as histórias, há uma que foi muito forte na minha vida. História de um amigo muito especial, sobre quem eu nunca tive coragem de falar aqui.
Não me sentia preparada para retratar com verdade meus sentimentos em relação á ele e sua história.
Não me sentia capaz de transcrever meus sentimentos em relação a sua importância para mim, ainda tão menina.
No inicio da adolescência, a gente procura ídolos.
Aqueles do cinema, da TV, e os que conhecemos na vida real.
O primeiro ídolo da minha vida, meu primeiro ídolo real, naquele universo tão pequeno em que eu vivia nessa fase ( Tabatinga), era o Negrine. José Negrine.
Tudo que escreverei sobre ele, foi visto com meus olhos de menina encantada.
Primeiro, ele se tornou alvo de minha admiração, porque era bonito.
Era alto, quase 1,90, ombros largos e atléticos, barriga tanquinho, muito antes da fase das academias de ginásticas.
Era sua natureza, aliada aos esportes que sempre gostou de praticar.
E como era bom atleta.
Jogava basquete, futebol de campo, de salão, corria nos campeonatos dos Jogos Estudantis.
Era bem humorado, sorria, com os olhos, que fechava á cada sorriso.
Richard Gere não perde, mas empata.
Apesar de ser 7 anos mais velho que eu, ficamos amigos.
Cada vez que ele ia jogar, eu pedia para segurar sua mochila, cuidar de seu relógio, segurar seus cadernos.
Ele sempre participava dos grêmios estudantis.
Ele carregava votos. Dos rapazes, porque era amigo, simpático, gente boa.
Das meninas, porque era tudo isso e … bonito.
Eu gostava da maneira que ele me tratava. A gente conversava muito, as vezes sobre amores, planos e muitas vezes piadas e muito risos. Ele era bom nisso.
Eu ria muito com ele.
Ele me tratava com respeito de gente grande. Eu gostava disso.
Ele tratava as pessoas com respeito.
Era um cara simples, hoje vejo que sua postura ética com as pessoas, com o mundo, ele não aprendeu. Nasceu sabendo.
Uma prova definitiva? Eu sempre fui adolescente desinibida, alegre, festiva, mas careta. Não fumava, acreditava que virgindade era para sempre, ou quase isso, beijar na boca era pecado, e dançar de rosto colado, proibido!.
Resultado: Não tinha namorado. Eu via todas minhas amigas namorando, menos eu, sem contar que não tinha nem um pretendente.
O que imaginei? Não namoro porque sou careta, vou ficar mais liberal, como minhas companheiras.
Não fui muito alem, mas comecei a sair com as meninas mais descoladas, que fumavam, dançavam agarradinhas, davam uns beijos. Estava me enturmando.
E nos bailes, quando vinham garotos das cidades vizinhas, comecei a dançar juntinho, estava liberando…
O Negrine, que estava fazendo Faculdade de Matemática em Bauru, e vinha todos os fins de semana para Tabatinga, começou observar minhas atitudes.
Não me disse nada. Escreveu uma carta, onde dizia para eu viver meu tempo, ser eu mesma, escolher as melhores amizades, que eu era diferente, para eu não apressar as coisas e continuar a ser aquilo que eu acreditava.
Uma carta linda. Três paginas, com sua letra grande, firme, forte, de professor. Li a carta para minha mãe, mesmo me arriscando a levar bronca por estar então, tentando “maus caminhos”.
Ela ficou encantada com ele.
Naquele tempo, na minha cidade não havia carteiros. Você passava no correio e perguntava: Tem carta para mim? Não precisava dar o nome.
A emoção indescritível de receber uma carta surpresa. Quase nunca ninguém escrevia para mim. Eu era uma menina de 13 anos. Ele um universitário de 20 então.
Que se preocupou como um irmão com meu futuro. Não me esqueci disso nunca.
A carta veio para mim: Maria Aparecida Ribeiro (Picida.)
Dos 12 aos 15 anos fomos amigos íntimos.
Com 15 anos mudei me para Ibitinga, mas férias e feriados, eu viajava para Tabatinga para rever os amigos especialmente o Negrine. Mantivemos o contato próximo até meus 18 anos quando fui morar em SP.
Então os encontros passaram a ser esporádicos.
Em 1976, no feriado de Finados 01/11 morando em SP, vim passar feriado em Ibitinga e fui passear em Tabatinga.
Eu, na porta do clube com amigos, ele na praça em frente com sua namorada Eunice.
Calça jeans, camisa branca. Chamei seu nome, ele acenou.
Foi a ultima vez que o vi.
Eu estava com 20 anos. Ele exatos 27.
15 de novembro haveria eleição para prefeito, ele já tão novo, era candidato a vice .Se não me engano, ele foi bem votado, mas não se elegeu.
Duas semanas depois, num sábado a tarde eu vinha de ônibus para Ibitinga passar mais um final de semana. Na parada que o ônibus faz na rodoviária de Araraquara, entrou um antigo colega de classe João Marquesi e me disse que soubera que um Negrine havia morrido.
Pensei em irmãos, primos dele. Jamais nele. Para mim, ele era infalível, e imortal.
Quando o ônibus fez parada em mais uma cidade, Nova Europa, a confirmação: Era o Zé Negrine, e com tiro. Como tiro? Em Tabatinga tinha revolver? Nem guardas eu via armado por lá.
Na parada de Tabatinga, exatamente ás 17 hs, saia o enterro, uma multidão na rua, as pessoas transtornadas.
Eu quis descer do ônibus por lá mesmo, o motorista e mais um amigo de Ibitinga não deixaram
Segui mais meia hora de viagem. Minha mãe e minha irmã me esperavam na rodoviária, queriam ser as primeiras a me contar. Já imaginavam o choque e a perda que seria para mim.
Foi a primeira vez na minha vida que alguém que eu amava, morria.
E elas me contaram a historia incrivel e trágica. Quase inacreditável.
Na sexta feita a noite, ele deu aulas no Colégio da cidade de Itápolis, e ao contrario do que era habito fazer, avisou na casa do amigo onde costumava se hospedar que após a aula, iria embora para Tabatinga, embora não gostasse de dirigir a noite naquela estrada de terra.
Avisou aos pais do amigos que não esperassem por ele.
Mas os alunos após as aulas da sexta feira, convidaram para um choppinho. Ele foi, conversaram ate tarde, ele se sentiu cansado, mudou de idéia: iria para Tabatinga no sábado pela manhã;
Quando foi para casa do amigo, todos estavam dormindo, ele não quis acordar. Ele já tinha sua cama, seu quarto reservado e sabia o segredo de abrir a porta:
Era só forçar, o trinco baixava, a porta abria.
Quando forçava a porta, o amigo, dono da casa, descia as escadas, perguntou quem era, ele não deve ter ouvido, não respondeu, o amigo que era cadete, deu um tiro para assustar o possível ladrão.
Acertou o amigo. Antes mesmo que ele abrisse a porta, seus pais, desceram correndo para avisar: “Ouvimos o Negrine colocar o carro na garagem.”
Era tarde. Um tiro só. Ele só teve tempo de dizer: “Deus tenha pena de mim”.
Acho que ele falou isso num pedido de socorro.
Depois eu soube, que no enterro, já quase 19 hs, começando a escurecer, o padre teve que pedir a população que deixassem que ele fosse enterrado, que estava escurecendo. AS pessoas se recusavam a aceitar o fato.
Fui á missa de sétimo dia.
A igreja lotada de uma maneira nunca vista.
Os amigos chorando, murros na parede, uma dor escancarada.
Naquele natal e muitos depois a cidade não se enfeitou, não acendeu luzes nem os piscas,
Durante muito tempo, sozinha no meu apto em SP, eu ouvia as musicas do cantor italiano Gianni Morandi, que tocava no cinema de Tabatinga e me lembrava dele, e chorava muito, muito. Tanto que uma vez uma vizinha perguntou quem chorava tanto a noite?
Confessei e assumi.
A dor foi passando, a foi ficando sua falta, saudades e lembranças boas.
Apesar de lamentar sua perda, agradeço a sorte de te- lo conhecido, por ele ter feito parte da minha vida.
E desde então, fiquei pensando intrigada: Pessoas especiais morrem mesmo mais cedo e desse jeito trágico?
Nunca o esqueço.
Voltando á morar no interior, fui passear com o Décio em Tabatinga, e no topo no Ginásio de Esporte seu nome: GINÁSIO DE ESPORTES JOSÉ NEGRINE.
Merecido. Tudo a ver com ele.
E Na TV TEM, Globo regional, quando há campeonatos de futebol de salão são disputados nesse ginásio, ouço seu nome mil vez na TV, lembro dele, de sua historia.
Lembro de tudo que ele foi, penso em tudo que ele poderia ter sido.
Uma saudade doce, melhor das lembranças.
“Das lembranças que trago na vida, ele é a saudade que gosto de ter”.
Reedição de texto escrito no meu blog há quase 3 anos atras
sábado, 7 de abril de 2012
SANTA NEM UMA SEMANA
VEJA ISSO
As primeiras semanas santas da minha vida, eu ainda criança em Tabatinga, ficava silenciosamente intrigada com o mistério que envolvia o fato de todas as imagens de santos da igreja, estarem cobertos por um cetim roxo. O que estava acontecendo? O que era aquilo?
Quando eu era criança, certas coisas, nem eram para se perguntar.
Se ninguem havia tido o que era, devia ser porque eu não tinha que saber…
Aí no catecismo, desfez se o mistério.
Começava com a quarta feira de cinzas, onde logo na missa de manhã tinha que ir a igreja onde as cinzas depositadas na cabeça pelo padre se confundiam com os confetes, nos cabelos cacheados.
Na quarta feira, carne nem pensar.
Em toda quaresma, as quartas e sextas feiras, só peixe, sardinha, ovos, legumes.
Os açouques nem abriam.
Era uma regra predominante. Em todas as casas, todas as famílias.
E em toda a quaresma, os santos cobertos pelo cetim roxo.
Ficava uma sensação de luto no ar.
Ninguém casava, ninguem batizava, nenhum tipo de festa. Era quaresma. Luto.
Na semana santa, havia a missa do“Domingo de Ramos”.
Eu não conseguia disfarçar a euforia na procissão de ramos, quando as pessoas,especialmente as que moravam na roça, traziam os ramos para serem benzidos.
Eles faziam arranjos, em forma de cestas, de laços, folhas entrelaçadas, eu achava tão lindo!
Muitas crianças como eu, só levavam uns raminhos, mas quando o padre os benzia, eu voltava para casa segurando meus ramos bentos, como se fossem a chave da porta do céu .
Na segunda, e terça feiras, nada a acrescentar. A igreja permanecia fechada.
Na quarta feira, “abstecer se de carne,como manda a santa madre igreja.”
Na quinta feira, cerimônia do lava pés.
Eu não entendia, acho que nem me interessava pelo aspecto religioso, eu ficava fascinada com o ritual teatral da cerimônia.
Na sexta feira, as rádios do interior não funcionavam, e os rádios não eram ligados. Silencio total.
Não era permitido cantarolar, assobiar, nem rir muito, nem brincar, nem brigar com os irmãos.
Tudo quieto, comedido, as vezes eu me esquecia, falava ou cantava alto, minha mãe logo corrigia: Silencio: hoje não pode.
Não que minha casa fosse de pessoas muito religiosas. Era assim que tinha que ser.
Na sexta feira o almoço era bacalhau. Mas com sentido religioso.
Sem espírito gastronômico. Receita básica: azeite, molho tomate, cebolas, batatas e azeitonas.
Ao anoitecer, na procissão, a cidade inteira, o pessoal da roça comparecia em massa.
Haviam
pessoas que vinham para cidade, só uma vez por ano, nesse dia. Mais importante que o Natal.
O momento em que a VERONICA cantava, enxugando o rosto de CRISTO, era para mim o momento mais esperado. O mistério. A Verônica trazia o rosto coberto, a gente nunca sabia quem era. Sábado a ressurreiçaõ, no domingo de páscoa, missa com roupa nova, á principio não havia o ritual dos ovos de páscoa.
No interior, eles foram chegando devagar.
A escola ensinava a música “Coelhinho da Páscoa que trazes pra mim? “
A primeira vez que os ovos de páscoa apareceram em casa, eu devia ter 11 anos. Na venda onde meus pais tinham conta apareceram os ovos, eu comprei fiado os menores, um para cada irmão, fiz um arranjo com papeis coloridos picados numa travessa coloquei os ovos, fiz surpresa para eles . Primeiros ovos, primeiros chocolates. Aí se fez a Páscoa ...
À partir dos meus 15 anos o sentido religioso da quaresma foi se perdendo, mas acho que não só para mim.
Hoje o peixe e bacalhau representam mais variedades gastronômicas. O chocolate é só o bom e velho chocolate.
Músicas, festas,TV, tudo normal. A quaresma nem se nota o ínicio e o fim.
Nenhuma crítica as mudanças. Só constatação.
A fila anda. As coisas mudam, até as maiores tradições, vão sofrendo alterações. Mas minhas lembranças, minhas histórias, estão aí. São meus olhos atentos para as mudanças.
Observações.
As primeiras semanas santas da minha vida, eu ainda criança em Tabatinga, ficava silenciosamente intrigada com o mistério que envolvia o fato de todas as imagens de santos da igreja, estarem cobertos por um cetim roxo. O que estava acontecendo? O que era aquilo?
Quando eu era criança, certas coisas, nem eram para se perguntar.
Se ninguem havia tido o que era, devia ser porque eu não tinha que saber…
Aí no catecismo, desfez se o mistério.
Começava com a quarta feira de cinzas, onde logo na missa de manhã tinha que ir a igreja onde as cinzas depositadas na cabeça pelo padre se confundiam com os confetes, nos cabelos cacheados.
Na quarta feira, carne nem pensar.
Em toda quaresma, as quartas e sextas feiras, só peixe, sardinha, ovos, legumes.
Os açouques nem abriam.
Era uma regra predominante. Em todas as casas, todas as famílias.
E em toda a quaresma, os santos cobertos pelo cetim roxo.
Ficava uma sensação de luto no ar.
Ninguém casava, ninguem batizava, nenhum tipo de festa. Era quaresma. Luto.
Na semana santa, havia a missa do“Domingo de Ramos”.
Eu não conseguia disfarçar a euforia na procissão de ramos, quando as pessoas,especialmente as que moravam na roça, traziam os ramos para serem benzidos.
Eles faziam arranjos, em forma de cestas, de laços, folhas entrelaçadas, eu achava tão lindo!
Muitas crianças como eu, só levavam uns raminhos, mas quando o padre os benzia, eu voltava para casa segurando meus ramos bentos, como se fossem a chave da porta do céu .
Na segunda, e terça feiras, nada a acrescentar. A igreja permanecia fechada.
Na quarta feira, “abstecer se de carne,como manda a santa madre igreja.”
Na quinta feira, cerimônia do lava pés.
Eu não entendia, acho que nem me interessava pelo aspecto religioso, eu ficava fascinada com o ritual teatral da cerimônia.
Na sexta feira, as rádios do interior não funcionavam, e os rádios não eram ligados. Silencio total.
Não era permitido cantarolar, assobiar, nem rir muito, nem brincar, nem brigar com os irmãos.
Tudo quieto, comedido, as vezes eu me esquecia, falava ou cantava alto, minha mãe logo corrigia: Silencio: hoje não pode.
Não que minha casa fosse de pessoas muito religiosas. Era assim que tinha que ser.
Na sexta feira o almoço era bacalhau. Mas com sentido religioso.
Sem espírito gastronômico. Receita básica: azeite, molho tomate, cebolas, batatas e azeitonas.
Ao anoitecer, na procissão, a cidade inteira, o pessoal da roça comparecia em massa.
Haviam
pessoas que vinham para cidade, só uma vez por ano, nesse dia. Mais importante que o Natal.
O momento em que a VERONICA cantava, enxugando o rosto de CRISTO, era para mim o momento mais esperado. O mistério. A Verônica trazia o rosto coberto, a gente nunca sabia quem era. Sábado a ressurreiçaõ, no domingo de páscoa, missa com roupa nova, á principio não havia o ritual dos ovos de páscoa.
No interior, eles foram chegando devagar.
A escola ensinava a música “Coelhinho da Páscoa que trazes pra mim? “
A primeira vez que os ovos de páscoa apareceram em casa, eu devia ter 11 anos. Na venda onde meus pais tinham conta apareceram os ovos, eu comprei fiado os menores, um para cada irmão, fiz um arranjo com papeis coloridos picados numa travessa coloquei os ovos, fiz surpresa para eles . Primeiros ovos, primeiros chocolates. Aí se fez a Páscoa ...
À partir dos meus 15 anos o sentido religioso da quaresma foi se perdendo, mas acho que não só para mim.
Hoje o peixe e bacalhau representam mais variedades gastronômicas. O chocolate é só o bom e velho chocolate.
Músicas, festas,TV, tudo normal. A quaresma nem se nota o ínicio e o fim.
Nenhuma crítica as mudanças. Só constatação.
A fila anda. As coisas mudam, até as maiores tradições, vão sofrendo alterações. Mas minhas lembranças, minhas histórias, estão aí. São meus olhos atentos para as mudanças.
Observações.
terça-feira, 21 de fevereiro de 2012
LIVROS LEITURAS E HISTORIAS
Para contar minha história, vou puxando pela memória, para registrar minha relação com a leitura, que desde sempre teve muita importância em minha vida.
Assim que fui alfabetizada, aos 6 anos de idade, comecei a me interessar pelo ato de ler.
Numa casa de pessoas simples, meus pais só tinham o curso primário, não havia um livro sequer, mas eu me interessava pelo ato de LER.
Lia os gibis de meu pai do Fantasma, do Mandrake, e ás vezes ele trazia gibizinhos do Tio Patinhas, Pato Donald, eu adorava.
Tinha também as fotonovelas (quem lembra?)
Eram romances, novelas, com fotos com legendas, que minha mãe insistia em esconder para que eu não visse os beijos na boca.
Quando ia para Ibitinga passar férias, as possibilidades de leitura melhoravam um pouco.
Mais revistas, até “Família Cristã”, “Seleções”.
Eu gostava de ficar horas lendo, o que eu encontrasse.
Mas ao mesmo tempo, não era uma criança quietinha.
Desinibida, alegre, gostava de brincar, cheia de amigas, dividia meu tempo sem problemas.
Na casa das minhas tias, encontrei meus primeiros livros: “Meu pequeno príncipe”, uma coleção de Louise May Alcott, que as meninas adoravam na época:”As mulherzinhas”, “As mulherzinhas crescem”, “Tom Sawer”, todos lidos numa férias, relidos na outra.
Quando tinha onze anos, minha mãe foi chamada no colégio em Tabatinga, para regularização de documentação, e fomos atendidas na biblioteca, que eu nem sabia que existia.
Dona Esli, a bibliotecária, jovem, bonita, elegante, e moderna.
Diferente do padrão, não é? Ela que disse que todos aqueles livros podiam ser “emprestados”, e indicou Monteiro Lobato.
Li a coleção toda, e não há Harry Potter no mundo que me cative mais que “O Sitio do Pica Pau Amarelo”.
Os livros que os professores mandavam ler para trabalhos de escola, para mim, era o tipo de tarefa agradável.
Ao contrário da maioria, eu gostava.
Todos os dias da minha vida, na minha adolescência eu tive um livro em minhas mãos.
Eu viajava nas leituras. Mesmo.
Quando tinha 13 anos, o Valfredo, irmão da D.Esli, mais velho que eu, num sábado veio até minha casa, perguntou se eu tinha lido “O Guarani” de José de Alencar. Ele precisava fazer um trabalho para escola para segunda feira, sobre o romance, com o resumo, análise dos personagens, essas coisas. Não, eu não tinha lido, ao ver o volume do livro, falei ser impossível ler num fim semana, eu tinha meus planos: passeio, cinema. Então, ele disse a frase mágica: “Eu te pago”. Meus olhos viraram dois cifrõezinhos $$$$$$$
Oba, ler e ainda ganhar para isso??? Assim começou minha carreira.
Virei profissional na arte de fazer esses trabalhos para os amigos. Dos que eram amigos mesmos, dos mais íntimos, eu não cobrava. Chegava á fazer dez trabalhos por dia.
José de Alencar, Machado de Assis, José Mauro de Vasconcelos, Èrico Veríssimo, Ligia F. Telles, Jorge Amado e por aí vai.
Havia as leituras sobre encomenda, e tinha sempre uns livros que eu já havia decorado, e quando o critério de escolha, ficava por conta por conta do aluno, eu só tinha que ter o trabalho de fazer um diferente do outro.
Eu não tinha uma leitura erudita, não era uma intelectual, só gostava muito de ler, e eu ficando tão rápida na leitura que até eu achava impressionante. Quando aos 15 anos, mudei me para Ibitinga, o hábito continuou.
Na biblioteca Municipal, eu lia os livros que eu estava á fim, as opções haviam aumentado um pouco, já encontrei Simone de Beauvoir, Victor Hugo, best sellers.
Mas continuei fazendo trabalhos de escolas aos montes, daqueles romances que os professores queriam embora um deles a D. Eugenia certa vez dissesse na minha classe, que sabia que tinha alguém (ela sabia quem era) que fazia trabalho para os outros e que mesmo mudando as palavras, reconhecia o estilo, reconhecia cada trabalho, mas, segundo ela, azar de quem encomendava.
Em SP, li menos, nunca fui de comprar livros, mas sempre emprestava de alguém, DEVOLVIA, continuei a gostar de ler, embora com menos tempo, e também porque aí surgiram para mim, as revistas e jornais. Até então, eu não tinha interesse por notícias, informações.
Virei uma leitora voraz de revistas e jornais, diminui os livros.
Passados os quase trinta anos morando em SP, voltei a morar em Ibitinga, e o que achei interessante, foi o reencontro com os amigos e os não tão amigos que se lembraram dos trabalhos de escola que eu fiz para eles.
De alguns eu lembrava, mas não lembrava que tinham sido tantos. Até o Decio ficou impressionado. Muita, mas muita gente mesmo. Eu diria que praticamente, nas duas cidades, toda uma geração que não leu porque eu o fiz por eles.Ganhei muito na vida por isso.
Fez muita diferença em toda minha vida, e hoje vejo que se tivesse sido mais bem orientada, meu interesse pela leitura poderia até ter sido mais bem aproveitado.
E como convencer hoje um adolescente, o quanto ler pode nos acrescentar na alma, na vida?
E pode distrair, divertir, emocionar.
Continuei lendo muito.
Meu irmão, Neto, comprvaa todas as revistas que encontrava nas bancas, TOODAAAAS.
Desde as mais banais tipo Caras, Vogue, as semanais de informação,Veja, Época, Isto E, as experimentais,alternativas tipo Piauí, Aplauso, todas as de moda, Boa Forma, Vip, Placar, Exame, Rolling Stones, Trip, acho até que ele era meio compulsivo com isso, e as passava para mim.
Sou capaz de virar a noite lendo. Começar um livro na hora em que vou dormir e só parar quando chegar ao final, já com o dia nascendo.
Imaginem o que foi a leitura para uma menina que até os 18 anos só conhecia as cidades de Tabatinga e Ibitinga.
Os livros eram o meu mundo, meu passaporte, para onde eles me levassem e tudo valeu muito a pena.
Assim que fui alfabetizada, aos 6 anos de idade, comecei a me interessar pelo ato de ler.
Numa casa de pessoas simples, meus pais só tinham o curso primário, não havia um livro sequer, mas eu me interessava pelo ato de LER.
Lia os gibis de meu pai do Fantasma, do Mandrake, e ás vezes ele trazia gibizinhos do Tio Patinhas, Pato Donald, eu adorava.
Tinha também as fotonovelas (quem lembra?)
Eram romances, novelas, com fotos com legendas, que minha mãe insistia em esconder para que eu não visse os beijos na boca.
Quando ia para Ibitinga passar férias, as possibilidades de leitura melhoravam um pouco.
Mais revistas, até “Família Cristã”, “Seleções”.
Eu gostava de ficar horas lendo, o que eu encontrasse.
Mas ao mesmo tempo, não era uma criança quietinha.
Desinibida, alegre, gostava de brincar, cheia de amigas, dividia meu tempo sem problemas.
Na casa das minhas tias, encontrei meus primeiros livros: “Meu pequeno príncipe”, uma coleção de Louise May Alcott, que as meninas adoravam na época:”As mulherzinhas”, “As mulherzinhas crescem”, “Tom Sawer”, todos lidos numa férias, relidos na outra.
Quando tinha onze anos, minha mãe foi chamada no colégio em Tabatinga, para regularização de documentação, e fomos atendidas na biblioteca, que eu nem sabia que existia.
Dona Esli, a bibliotecária, jovem, bonita, elegante, e moderna.
Diferente do padrão, não é? Ela que disse que todos aqueles livros podiam ser “emprestados”, e indicou Monteiro Lobato.
Li a coleção toda, e não há Harry Potter no mundo que me cative mais que “O Sitio do Pica Pau Amarelo”.
Os livros que os professores mandavam ler para trabalhos de escola, para mim, era o tipo de tarefa agradável.
Ao contrário da maioria, eu gostava.
Todos os dias da minha vida, na minha adolescência eu tive um livro em minhas mãos.
Eu viajava nas leituras. Mesmo.
Quando tinha 13 anos, o Valfredo, irmão da D.Esli, mais velho que eu, num sábado veio até minha casa, perguntou se eu tinha lido “O Guarani” de José de Alencar. Ele precisava fazer um trabalho para escola para segunda feira, sobre o romance, com o resumo, análise dos personagens, essas coisas. Não, eu não tinha lido, ao ver o volume do livro, falei ser impossível ler num fim semana, eu tinha meus planos: passeio, cinema. Então, ele disse a frase mágica: “Eu te pago”. Meus olhos viraram dois cifrõezinhos $$$$$$$
Oba, ler e ainda ganhar para isso??? Assim começou minha carreira.
Virei profissional na arte de fazer esses trabalhos para os amigos. Dos que eram amigos mesmos, dos mais íntimos, eu não cobrava. Chegava á fazer dez trabalhos por dia.
José de Alencar, Machado de Assis, José Mauro de Vasconcelos, Èrico Veríssimo, Ligia F. Telles, Jorge Amado e por aí vai.
Havia as leituras sobre encomenda, e tinha sempre uns livros que eu já havia decorado, e quando o critério de escolha, ficava por conta por conta do aluno, eu só tinha que ter o trabalho de fazer um diferente do outro.
Eu não tinha uma leitura erudita, não era uma intelectual, só gostava muito de ler, e eu ficando tão rápida na leitura que até eu achava impressionante. Quando aos 15 anos, mudei me para Ibitinga, o hábito continuou.
Na biblioteca Municipal, eu lia os livros que eu estava á fim, as opções haviam aumentado um pouco, já encontrei Simone de Beauvoir, Victor Hugo, best sellers.
Mas continuei fazendo trabalhos de escolas aos montes, daqueles romances que os professores queriam embora um deles a D. Eugenia certa vez dissesse na minha classe, que sabia que tinha alguém (ela sabia quem era) que fazia trabalho para os outros e que mesmo mudando as palavras, reconhecia o estilo, reconhecia cada trabalho, mas, segundo ela, azar de quem encomendava.
Em SP, li menos, nunca fui de comprar livros, mas sempre emprestava de alguém, DEVOLVIA, continuei a gostar de ler, embora com menos tempo, e também porque aí surgiram para mim, as revistas e jornais. Até então, eu não tinha interesse por notícias, informações.
Virei uma leitora voraz de revistas e jornais, diminui os livros.
Passados os quase trinta anos morando em SP, voltei a morar em Ibitinga, e o que achei interessante, foi o reencontro com os amigos e os não tão amigos que se lembraram dos trabalhos de escola que eu fiz para eles.
De alguns eu lembrava, mas não lembrava que tinham sido tantos. Até o Decio ficou impressionado. Muita, mas muita gente mesmo. Eu diria que praticamente, nas duas cidades, toda uma geração que não leu porque eu o fiz por eles.Ganhei muito na vida por isso.
Fez muita diferença em toda minha vida, e hoje vejo que se tivesse sido mais bem orientada, meu interesse pela leitura poderia até ter sido mais bem aproveitado.
E como convencer hoje um adolescente, o quanto ler pode nos acrescentar na alma, na vida?
E pode distrair, divertir, emocionar.
Continuei lendo muito.
Meu irmão, Neto, comprvaa todas as revistas que encontrava nas bancas, TOODAAAAS.
Desde as mais banais tipo Caras, Vogue, as semanais de informação,Veja, Época, Isto E, as experimentais,alternativas tipo Piauí, Aplauso, todas as de moda, Boa Forma, Vip, Placar, Exame, Rolling Stones, Trip, acho até que ele era meio compulsivo com isso, e as passava para mim.
Sou capaz de virar a noite lendo. Começar um livro na hora em que vou dormir e só parar quando chegar ao final, já com o dia nascendo.
Imaginem o que foi a leitura para uma menina que até os 18 anos só conhecia as cidades de Tabatinga e Ibitinga.
Os livros eram o meu mundo, meu passaporte, para onde eles me levassem e tudo valeu muito a pena.
Assinar:
Postagens (Atom)
